Tuesday, January 31, 2012

Perca-se de vez!

"Dezembro na pateira" de Álvaro Roxo
Queria que tudo isso passasse e que a leveza voltasse. Anda se sentindo pesada e, ao mesmo tempo, de mãos atadas. Seus gritos ficam sufocados pelas minhas amordaças. E precisa se calar por fora e se ouvir por dentro. É mais que um desejo, é necessidade.

Sente-se presa naquele mundo que ela mesmo criou. É como se tivesse parado no tempo e não descobrisse a causa que a acorrenta em atitudes repetitivas. Quando se dá conta de que o comportamento apenas se repete, já é tarde demais. Recai sobre os mesmos erros, os mesmos julgamentos, as mesmas infantilidades. As mesmas burrices. E por que precisa ser tudo o "mesmo"? E por que tudo de novo?

Precisa voltar a aprender a aquietar a mente. Esquecer e se deixar esquecida. De (deixar de) fazer certas coisas. Desespero e ansiedade machucam e são tolices da humanidade. São, sobretudo, suas tolices incontroláveis.

Monday, January 30, 2012

A cidade e as cegas

Ela olha pela janela. Já anoiteceu, as luzes se acenderam lá fora. Ali dentro continua escuro, sombrio. Não sabe muito bem o que procurar, pois não tem certeza se de fato quer encontrar alguma coisa.

Pousa o queixo sobre os braços cruzados e não se cansa de pensar. Pensa sobre os clichês da vida e os tapas na cara que anda levando. Toma outro gole. E mais outro. Tira seus óculos para ver se assim consegue enxergar melhor. Quer vasculhar aquela paisagem pra saber se ainda há algo ali. Se ainda resta alguém.

Hesita diante de tudo isso. Será que saberia lidar com as mudanças que a vida vem tentando lhe oferecer? Vasculha lá dentro de novo. E tenta enxergar aquilo que é inalcançável aos seus olhos. Alguns fios de cabelo escapam e recaem sobre a sua testa. Não se importa. Não sabe mais o que exatamente a vida quer lhe mostrar com tudo isso. Perde as forças e a vontade diante de tantas novidades. E se confunde por não entender os porquês.

Os sons dos carros lá embaixo diminuem ao passo que tantos outros sons aumentam dentro da sua cabeça. Não entende porque sempre se acha tão errada em tantas situações. Não entende o porque querer determinada coisa é tão difícil e tão inalcançável. Será que está sempre errada, como sempre se julga estar?

Outro gole passa pela garganta que já não quer mais se abrir. Querendo calar seus pensamentos, fecha seus ouvidos. Em vão. Fecha a garrafa, isso tudo não faz mais sentido. A cidade já não é mais a mesma. E ela também não.

Sunday, January 22, 2012

Recortes

Querendo esquecer da realidade, tomava um outro gole da pinga. Seu casaco mostarda, seu boné escuro e os cabelos meio grisalhos se misturavam naquela figura.

Estava andando vagarosamente sobre o viaduto. Falava sozinho. Falava qualquer coisa e gesticulava com apenas uma das mãos (a outra, era ocupada pela pinga). Parecia que queria fazer com que o mundo o ouvisse. Mas, ninguém escutava. Os carros fechavam suas janelas como se quisessem dar as costas àquele indivíduo.
Ele olhou para a minha direção e logo desviou o olhar. Alguém o observava. Eu ali, tentava decifrar as palavras jogadas ao vento. A plateia era exígua.

Se virou, e tudo o que pude ouvir foi um toma pra vocês. Atirou um pequeno pedaço de barbante desgastado na via que passava por baixo do viaduto. Barbante tão pequeno que nem servia para uma possível tragédia.

A garoa fina começou a cair e, aquele casaco mostarda, foi se deixando descer pelo viaduto.

Tuesday, January 10, 2012

Ali dentro


Ela se fecha em um mundo interno e infinito e, dentro desse mundo, se explora. Adentra portas nunca abertas, lugares obscuros de sentimentos oblíquos. Nada é certo. Também nada é errado. Apenas procura encontrar respostas dentro de si mesma para aquilo que não possui sequer uma pista. Os questionamentos aumentam, as forças se confundem e ora se encontra em pura fraqueza, ora com toda força que a vida pode lhe dar. E não dá pra entender. São altos e baixos e muitas curvas entre uma descoberta e outra. É como uma montanha russa, cujo fim nunca se aproxima. Quanto mais se aprofunda, se depara com quebras, falhas, rachaduras. E dá um aperto, uma aflição, até mesmo uma agonia.

As pessoas já não querem mais fazer parte disso. Afastam-se dela, às vezes, até sem querer. E naquele cantinho frio, sozinha com ela mesma, suas lágrimas escorrem. Por alguns momentos ela se esqueceu de ser mulher e apenas se deixou ser criança.

Sunday, January 08, 2012

Ah... as mudanças.

O ano muda, as pessoas nem tanto. E não é por não quererem, mas sim porque o processo de uma mudança profunda leva tempo. Leva tempo para entender que algumas coisas estão um pouco mais arraigadas que outras. São conceitos, maneiras de viver e de encarar as coisas e até mesmo de colocar as coisas na balança que fazem a diferença quando a real vontade é de, no fundo, mudar uma porção de visões.

Você passa a não se importar com algumas coisas, mas ainda sim, dá atenção em demasia a tantas outras que não devem ter sequer atenção.
Algumas pessoas sentem necessidade em falar determinadas coisas que, no fundo, não precisam ser faladas. Elas simplesmente ficam subentendidas nas entrelinhas. Então, pra que abrir a boca? Qual é essa necessidade? E por que essa agonia? Eu também não entendo. Penso, penso e quanto mais eu penso, mais o nó se faz na minha cabeça. E a gente tenta ficar quieta quando a vontade é de falar, falar e falar, por mais que não se saiba bem ao certo o quê. Isso definitivamente não está certo. Mas talvez também seja parte do processo de alterar, desfazer, refazer e ver no que dá.

Outras tantas pessoas não sentem qualquer necessidade de falar feito uma matraca doida. Elas se contentam com o silêncio próprio e o alheio e seguem sua vida sem olhar para trás. Mas até onde isso também é saudável? Até onde isso faz parte de crescer e perceber o que se quer ou não? Se não está contente, simplesmente aceita em silêncio? 

Acho que estou no meio desse processo louco de me conhecer e saber até onde vai meu limite. Ou, talvez, no começo, em uma visão mais conservadora. Ao que parece, será um longo caminho tortuoso, mas que estou disposta a seguir... afinal, não dá pra ser a mesma e cometer os mesmos erros sempre. É hora de mudar.

Saturday, December 31, 2011

O último de doismileonze

Clichê ao extremo. Mania e tradição de todo final de ano: cá estou eu com o meu balanço anual. Acho importante, acho natural, acho válido e acho, ainda mais, que é hora de pensar nos erros, acertos e tentar fazer algumas coisas diferentes.

Foi um ano cheio de términos e inícios. Término da segunda faculdade, da vida de estagiária, da representação dos alunos, da comissão de formatura. Verdadeiro início da carreira que escolhi para fazer durante um bom tempo da minha vida (dizer que é para o resto da vida é muito tempo e gosto de pensar que posso mudar quando achar que isso não é mais aplicável a mim). Início da vida real, dos planos mais concretos.

Neste ano foram diversos os momentos em que pensei em desistir. Acabei me deparando com muitas das minhas frustrações de uma vez só e percebi o quanto as pessoas podem ser mesquinhas, arrogantes e incompreensivas. Até aí, nenhuma novidade, afinal, todo mundo sabe que o mundo é injusto, algumas pessoas são escrotas, etc, etc. Mas ainda sim, é difícil de lidar com determinadas situações em que você tenta ser o mais transparente possível, o mais correta possível e, ainda sim, fazem seu mal julgamento.

Foram lágrimas doídas, cansaço interminável e preocupações sobre preocupações, mas acabou... pelo menos por enquanto. E com tudo isso, aprendi que não adianta querer agradar as pessoas, mas sim, devemos sempre fazer e seguir o caminho que achamos certo e apenas deitar a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila.

Ainda sim, por óbvio, a vida seguiu seu rumo. Conheci a cidade de São Francisco, nos Estados Unidos. Revi amigos queridos (que moram fora, que estudaram comigo no colégio, de outros carnavais). Reatei amizades que, por um bom tempo, achei que jamais voltassem a existir.

Passei por grandes decepções e fracassos, mas hoje prefiro pensar que tinha que ser assim e não de outro jeito. É difícil lidar com o fracasso quando todos os outros ao seu redor conseguiram e você não, mas a gente sobrevive, cresce e aprende. Faz parte de todo o processo.

Aprendi um pouco mais sobre o que é ter amizades de verdade. Vi meus amigos muito menos do que gostaria, mas foram sempre momentos especiais. E com a minha maior e melhor amiga (e, de quebra, minha irmã) não poderia ter sido diferente. Brigamos, fizemos as pazes, brigamos de novo, choramos juntas... e tudo isso só nos ajudou a crescer e a nos respeitar ainda mais, cada qual com a sua maneira de ver o mundo. A confiança foi reconquistada e o aprendizado ainda maior. Sem ela, não sei o que seria de mim. Longe ou perto, estamos sempre juntas.

Assim foi o ano: aprendendo a lidar com o crescimento, as vontades, as frustrações e as desilusões. Quebrei alguns dos meus princípios, alterei conceitos, deixei algumas das minhas próprias regras para trás. Sem arrependimentos. Aprendi a ser mais leve e devo levar tal leveza para 2012.

Último post do ano. Último dia com a "idade velha". Amanhã alguma coisa diferente surgirá.

Seja bem vindo, 2012.

Sunday, December 25, 2011

What about Xmas?

Era um movimento repetitivo, mas as luzes não deixavam de encantar os olhinhos ávidos daquela menininha que esperava o ano todo por aquela data. Era sua segunda data favorita, já que a primeira sempre seria o seu aniversário, ainda que a data deste nem fosse tão favorável para se estar próxima das outras pessoas.

Montava a árvore cuidadosamente para que todos os seus enfeites fossem perfeitamente encaixados. Era uma mistura linda de cores, um misto de papais nóies e bolinhas de vidro. O presépio era o seu maior xodó e sempre crescia ao menos uma pecinha por ano, para que a tradição não se perdesse. Era uma espera gostosa; uma ansiedade própria de criança. Escrevia cartões pra todo mundo e não se cansava em desejar um feliz natal para todos que entrassem naquela loja em busca de presentes, de enfeites, de magia.

Quando chegava o grande dia, a expectativa aumentava ainda mais. A surpresa era sempre boa e os momentos eram especiais. O encontro era na casa da nonna e, aí, era só alegria: os primos se juntavam, a família se reunia, a conversa começava, o barulho aumentava, mas nada disso era problema, afinal, era natal. Não havia maiores preocupações, apenas a vontade de estar ali e de participar com a família de um dia tão gostoso e especial.

No entanto, a magia e o encanto dessa mesma data foram se perdendo com o tempo. Não sei exatamente quando isso aconteceu de forma definitiva, nem de que maneira, mas, de repente, o natal passou a não fazer mais tanto sentido pra ela. Passou a ser apenas uma outra data, um encontro de família, e até mesmo uma certa "obrigação" em alguns momentos... algumas atitudes passaram a ser observadas e toda aquela confusão gostosa passou a ser uma situação de tensão, de angústia e, até mesmo, de um pouco de tristeza. Tristeza por perceber que o que era bonito se acabou, que a vida de verdade não é tão legal assim, e que faz parte do crescimento encarar algumas verdades de frente, sem que se esteja necessariamente preparada para tal.

A perspectiva mudou, os anseios e as vontades também. O que ficou? Talvez tenha ficado apenas aquela menininha com vontade de voltar no tempo e com uma saudade sem tamanho.

Sunday, December 04, 2011

Menina dos olhos

Ela sempre esteve por perto, desde pequena. Sempre foi assim, não tem jeito. Apesar dos sete longos anos que nos separam, aparentemente, não há diferença alguma. Às vezes, na verdade, chego a pensar que ela é a mais velha da relação e que eu continuo sendo a criança que precisa levar umas broncas de vez em quando.

Não sei ao certo qual é essa nossa ligação. Algo que mistura cumplicidade, amor de irmã, de amiga, de mãe, um pouco de ciúme, possessão, mas também de proteção, de amor, de cuidado... assim meio que tudo junto e misturado, meio difícil de entender.

Gosto de ouvi-la falar, de ouvir seus conselhos, de entender seu universo paralelo. E isso envolve um monte de coisa: respeito mútuo, amor, admiração, orgulho... Nunca entendi muito bem essa ligação toda. Aliás, a cada dia que passa, me pergunto ainda mais o que há nessa mistura toda e continuo sem respostas.

Ela se foi mais uma vez... ainda bem que por tempo determinado. São só três meses, eu sei, mas são meses de mudanças, ao menos para mim: términos de ciclos, início de ano, de vida nova, de novos objetivos e afins. Mas o fato é que, não importa a distância entre nós, nem o tempo em que as coisas aconteçam, importa mesmo é que sempre estaremos por perto, ainda que em pensamento. 

Monday, November 28, 2011

Retrato

Era uma segunda-feira de manhã como qualquer outra. Ela, de dentro do carro, ouvia o som alto e olhava ao seu redor, enquanto o trânsito continuava no andaepara. Os olhos distraídos passaram pelos carros, pela rua, sem muita expressividade. Ele caminhava lentamente com um pedaço de papel pardo na mão. Tinha cabelos engruvinhados, uma boina cinza e as meias eram de cores diferentes. A meia rosa chamava a atenção em meio às roupas velhas e sujas.


Pegou o papel de embrulho e o colocou lentamente no chão. Os raios de sol já estavam aparecendo apesar do céu nublado, eram 8:20h da manhã. Em frente ao grande muro da fábrica que não para, ele se deitou sobre o papel pardo. Colocou a cabeça dentro da camiseta verde, como se fosse um caramujo... e assim, dormiu, em meio à cidade.

Saturday, October 22, 2011

Incompleta.


Silêncio por fora
Turbilhão de pensamentos
Enquanto isso, a vida passa
Passa pra lá, passa pra cá
Um movimento infinito
E nada de novo acontece
Desânimo, solidão
Tristeza a cercam
O andar é devagar
O sorriso já não é mais o mesmo
As dúvidas de sempre persistem
As críticas pesam mais
Carência se instala sem pedir licença
E a vida passa.

Wednesday, October 12, 2011

Esses tais valores...


Desde crianças adquirimos valores e aprendemos tantas coisas com os nossos pais. Aprendemos a ser honestos, a nos preservar, a sermos e nos tornamos boas pessoas quando crescer. Quando viramos "gente grande", entretanto, as coisas mudam um pouco de figura. Alguns valores continuam mais que arraigados em nós ao passo que outros tantos valores importantes se perdem por aí. Nem sempre há um grande prejuízo com a perda - e, com isso, quero dizer que sim, há aprendizados que podemos guardar na gaveta quando aprendermos a identificá-los e saber até que ponto eles pertencem ou não a nós -, mas, há ainda algumas coisas que devem ser preservadas, independente do ser humano que você quer se tornar.

Foto sem título, por Inácio Freitas
Acredito sim que a verdade, a honestidade, a sinceridade e, acima de tudo, a humildade devem sempre permanecer como princípios básicos, norteadores de todas as nossas relações cotidianas. Já a parte ruim do ser humano e, por essa "parte ruim" leia-se a mentira, a mesquinhez, a inveja, a trapaça, a cara-de-pau, a sem-vergonhisse e até mesmo a falta de escrúpulos, ahhhh esses "valores" sim podem ser jogados imediatamente no lixo.

É claro que nem todo mundo é 100% mocinho ou 100% vilão... o mundo também não teria graça se só existissem pessoas extremamente boas ou pessoas extremamente más. Todo mundo carrega um pouquinho de coisa boa lá no seu fundinho, bem como um pouquinho de coisa ruim, ainda que não queira admitir. No entanto, quando simplesmente percebemos que as pessoas em que pensamos poder confiar já não são aquelas mesmas pessoas que carregam consigo a maior parte "boa" da coisa, aí o melhor mesmo é simplesmente descartar.

Quando mais velhos, infelizmente (ou felizmente?), percebemos simplesmente que nem todo mundo continua carregando aqueles bons valores consigo.

**Feliz Dia das Crianças**

Saturday, October 01, 2011

O discurso...



Boa noite a todos que compõem a nossa ilustre mesa: nosso patrono, nossos queridos paraninfos, professores homenageados. Boa noite a todos os colegas e aos presentes que aqui vieram para nos prestigiar em uma data de extrema importância.

Difícil falar de cinco anos em apenas alguns minutos. Ainda mais quando esses cinco anos foram aqueles em que nos transformamos de universitários em profissionais. Aqueles em que crescemos como seres humanos, em que tivemos nossos horizontes expandidos, em que descobrimos que os muros de uma universidade são meros obstáculos físicos diante de todo conhecimento que somos capazes de adquirir e das coisas que podemos realizar por si só.

Cinco anos de muito estudo, muitas leituras, mas também de grandes amizades, de muito trabalho, de horas inumeráveis de sono perdidas, mas também de grandes recompensas e conquistas. E hoje estamos aqui para concluir apenas mais uma etapa entre tantas outras que ainda teremos que enfrentar. Não é um fim, mas apenas um recomeço.

Antes de entrarmos aqui, a maioria de nós - se não todos - passou por um momento de dúvida sobre que carreira seguir ou o que fazer. As opções eram muitas, e decidir nunca foi uma tarefa fácil. Porém, mesmo com todas essas opções, nesse momento fizemos a mesma escolha: cursar direito. Pode ser que alguns tenham escolhido essa carreira simplesmente por curiosidade. Outros já possuíam um objetivo mais definido. Outros, assim como eu, chegaram a se graduar em outro curso, mas, ainda sim, resolveram enfrentar mais cinco longos anos de graduação. O que posso afirmar é que todos nós entramos na faculdade dispostos a aprender mais e nos aprofundarmos em uma área que nos permitiria conhecer melhor sobre nossos direitos e deveres em um país onde a injustiça e a desigualdade sempre falaram mais alto.

É preciso lembrar também de que o Direito é uma das áreas mais conhecidas por atrair pessoas com poder de convencimento, ou como se diz, a famosa “lábia”. Certamente muitas vezes nossos professores e colegas tentaram, e, às vezes, até conseguiram nos convencer de uma série de coisas, pois, cá entre nós, nunca faltam argumentos para nossos futuros advogados aqui sentados. Aliás, no fundo, nós mesmos tentamos nos convencer inúmeras vezes, inclusive de que fizemos a escolha certa para a nossa carreira profissional. E hoje, ao final de cinco anos de muitas aulas, livros, leis, processos, relatórios, debates e inúmeros trabalhos podemos ainda não estar convencidos de nossas escolhas, mas uma coisa é certa: aprendemos que mais que provar aos outros as nossas verdades, a primeira pessoa a quem devemos total sinceridade é sempre a nós mesmos.

Acredito que eu possa também presumir que entre livros e processos, jamais algum de nós aqui sentados hoje esqueceremos do Mackenzie: seja pelos professores, seja pelas pastas de prática jurídica (ah que inesquecíveis!), seja pelas “desviadas e reboladas” para fugirmos de tantas faltas para que a média não tenha que se tornar um belo 7,0!, seja pelas grandes amizades que foram criadas.

E eu diria que as amizades ali criadas, foram muito bem cultivadas ao longo da faculdade com os “amigos” Portuga, Macfill, The Joy, Azaleia, passando pelo Vila Imperial, o sujinho... pois é, a Maria Antônia nunca mais será a mesma depois desta turma. Isso sem mencionar as inúmeras festas nesses cinco anos. Foram Bixurrascadas, Mackbixos, Bota Dentro, Bota Fora, Bota no Meio, cervejadas... enfim, tudo regado à alegria típica dos Mackenzistas de plantão.

Nesse sentido, também não poderíamos deixar de fora os nossos Jogos Jurídicos. Seja lá qual for a modalidade - handball, futebol, vôlei, basquete, rugby - nossos atletas estão sempre lá suando a camisa e dando o seu melhor e, claro, o Comando Vermelho Mackenzista sempre aparece para completar a torcida e animar a galera... mas como ninguém é de ferro, baladinhas à noite e a arena com o seu repertório musical de primeira qualidade (e cheia de “mulheres maravilhas”) fazem história e sempre rendem boas lembranças!
Enfim, aprendemos muito dentro e fora da faculdade e percebemos também que a vida é um eterno tribunal, onde as pessoas se julgam o tempo todo, dizem verdades e mentiras e se condenam às vezes por motivos incompreensíveis. Por isso, estudar o Direito é aprender mais sobre a vida e, acima de tudo, sobre nós mesmos. Ainda que tenhamos dúvidas do que fazer daqui pra frente ou que não estejamos convencidos se fizemos a escolha certa, sabemos que esses anos todos valeram a pena, pois hoje saímos daqui muito mais do que profissionais jurídicos: saímos daqui como pessoas em busca de objetivos melhores.

Sendo assim, espero que nossa dedicação não se reverta apenas em benefício próprio, mas que dela também resulte um país mais justo e igual. Que nossa carreira seja de sucesso, mas que esse sucesso possa também ser visto no rosto daqueles que tiveram seus direitos garantidos por uma constituição que poucos brasileiros sabem que possuem. Espero, sinceramente, que nosso poder de convencimento seja exercido a cada dia não para garantir que mentiras se tornem reais, mas para lembrarmos que a verdade deve ser dita e encarada se quisermos um mundo melhor.

Não podemos deixar de agradecer todo apoio incondicional que recebemos dos nossos pais a cada dia. Apoio este que nos fortalece e nos ajuda subir degrau por degrau no tempo e ritmo certos. Devemos ser gratos àqueles que um dia também estiveram em nosso lugar como meros estudantes, mas que resolveram dedicar parte de sua carreira à árdua tarefa de transformar estudantes universitários em verdadeiros profissionais. E claro, também agradeço aos meus queridos amigos e colegas, que, de algum modo, tiveram algo a acrescentar na minha vida, seja por demonstrações de amizade ou pela simples convivência em sala, mas principalmente por compartilhar comigo a tarefa de concluir um curso de forma digna e de poder, ao fim de cinco anos, ter orgulho de quem eu me tornei.

Por fim, finalizo o meu discurso com um trecho do escritor português Ramalho Ortigão “Ninguém é grande nem pequeno neste mundo pela vida que levam, pomposa ou obscura. A categoria em que temos de classificar a importância dos homens deduz-se do valor dos atos que eles praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus  semelhantes”.

Com isso quero dizer a cada um de vocês, queridos formandos, que independente da escolha que vocês fizerem - futuros advogados, defensores públicos, promotores de justiça, delegados, magistrados, procuradores – sempre exerçam a sua atividade de maneira honesta, digna e com humildade, pois o futuro promissor já está de portas abertas para nos receber.

Parabéns e muito sucesso a todos.

Monday, September 26, 2011

Essa tal inveja...


Confesso que tenho inveja das pessoas. Não das pessoas, mas de algumas delas. E não uma inveja feia que quer o que as pessoas têm, mas uma “inveja boa”, se é que ela existe... uma inveja de ser mais independente e liberta dos meus preceitos. Ou melhor, dos preceitos que me foram incutidos de alguma maneira. Inveja de ser mais segura, menos ingênua... de saber o que eu quero e não ficar com medo do que os outros vão pensar. Aliás, quem são esses outros e por que eles têm tanta importância mesmo? Não me entendo. E aí, fico sentindo aquela pontinha de inveja por ser tão auto-piedosa quando, na verdade, eu deveria conseguir enxergar o que há de verdadeiro em mim e agradecer por isso ao invés de colocar embaixo de todos.

Acabo por ter inveja – o mesmo sentimento que eu abomino – porque ao mesmo tempo que eu não quero ter determinadas atitudes, eu sofro por dentro para não tê-las. Sei que tais pensamentos não são verdadeiramente meus, mas sim de outros, mas, ainda sim, por quê tão intrínsecos? Por que tão presos a quem eu sou?

Ando confusa e em crise existencial. Não sei se devo a culpa de tudo isso à maldita volta de Saturno ou se devo tudo isso à mim mesma, no maior estilo “parabéns, você anda conseguindo se autodestruir um pouquinho por dia”.

Paciência.

Sunday, June 26, 2011

Dois

Como assim?
Corre pra ela não te ouvir
Venha cantando baixinho até me encontrar
Vigiando as estrelas
Meus braços estarão a te esperar
Mesmo à distância
Fico em silêncio
Fina flor nos cabelos
Fantasias vãs
Sem culpa
Só nós
Apenas nós
Assim de mãos dadas
No vão escuro entre duas paredes
Não sei mais como esconder
Um beijo roubado
Único, como havia de ser.

Saturday, June 25, 2011

O mito do inacessível

Mito: dentre os diversos significados mitológicos, o mito é a “idéia falsa, que distorce a realidade ou não corresponde a ela”; é a “coisa ou pessoa fictícia, irreal, fábula”.

Temos a frequente mania de mitificar as pessoas. Alguns parecem simplesmente inalcançáveis até mesmo para os nossos desejos mais secretos. E vem junto com o receio de fantasiar o “como seria se...?”. Tornando alguém mítico, fica mais fácil de se observar de longe e transformá-lo em amor platônico. Não se corre riscos, não há o que perder... observa-se de longe, os pensamentos pairam pelo ar e nada ocorrerá.

Assim, acabamos nos afastando do que poderia ser algo real, por torná-lo mítico, quando, na verdade, trata-se tão somente de um ser humano, de carne e osso, com as mesmas necessidades de qualquer outro. As vontades, muitas vezes, são as mesmas, mas o medo, a mitificação do outro parece nos afastar e nos cegar para uma realidade que está bem ali, diante dos nossos olhos. Ficamos com medo de nos entregar, de nos arriscar, por já aguardar a rejeição. Envolve medos diversos: de se machucar, de se deixar levar, de levar o famoso “não”...

E quando ocorre o contrário? Ah, quando você é o mito para outra pessoa não há como explicar ao outro que não há mitos, e que você é apenas como qualquer um outro e quer apenas as mesmas coisas.

O nosso papel de mulher mudou muito nos últimos anos dentro da sociedade. Lutamos pela igualdade dos direitos, por mais espaço no mercado de trabalho, etc etc. Ainda sim, nem por isso mudamos por dentro. Por mais que a gente mergulhe nos nossos afazeres, no trabalho, por mais que nos tornemos pessoas batalhadoras, conquistando o nosso espaço onde antes só pertencia aos homens, continuamos sendo as mesmas pessoas de antes. Continuamos sendo as mesmas criaturas que, de certo modo, são frágeis por dentro e cheias de sentimentos. Continuamos nos decepcionando pelas mesmas coisas e, no fundo, só mudamos o nosso jeito de lidar com algumas situações no nosso dia-a-dia, mas isso não mudou a nossa essência e, ao invés de mitos, somos apenas mulheres de carne e osso, com as mesmas vontades de qualquer outra em qualquer época.

Wednesday, May 18, 2011

Se eu peco é na vontade...

(*) Foto por Miguel Lucena: "I saw the light"
Fui convidada a entrar sem saber aonde exatamente eu estava entrando. E com quem estava lidando. Eu, ingenuamente, fui colocando um pé após o outro, reconhecendo o local. Tateando um móvel aqui, pisando em um chão variável, ainda sem muita firmeza, mas fui me deixando levar aos poucos. Sempre com o pé atrás, sempre achando que não era comigo.

Sob um pretexto besta, nos encontramos ali e, de repente, já conversávamos como se íntimos fôssemos. Horas ininterruptas e muitas palavras trocadas. Há tempos não conhecia alguém assim interessante. Nem percebemos que continuávamos a falar sem parar, andando para uma mesma direção, desvendando juntos as diversas paredes que ali estavam até então. Até então.

E depois de tantas palavras e incertezas, consulta às amigas e o apoio incondicional destas, fiquei um pouco mais segura, um pouco mais "entregue" à toda aquela brincadeira. Ele foi promovido de ilustre desconhecido (ou conhecido de longe) para o interessante e novo encanto. Não abandonava seu posicionamento... avançava um passo a cada momento. Um passo forte e, até então, certo. 

No entanto, nem sempre as escadas são lineares. Algumas podem ser tortuosas. Nem sempre as paredes são o que parecem. Algumas podem ser secretas. E os espelhos... ah, esses ficam nos espiando ao longe, esperando o primeiro passo em falso. O fato é que as verdades foram verdades até que a omissão do principal veio à tona. Até então, era tudo novo, bonito e sem culpa. Sem querer, percebi que fui convidada a entrar, na verdade, em um vão entre duas paredes que, até então, parecia que estava ali. Um longo vão que, num primeiro momento, parecia largo demais. Eu via pequenas rachaduras em, pelo menos, uma daquelas paredes, mas não conseguia enxergar a outra. Talvez tenha fantasiado rachaduras para excluir a culpa de ter aceitado a continuidade da brincadeira primeira. Para, talvez, resgatar os encantos que eu havia descoberto no outro. Mais uma vez, me enganei, o vão era apertado demais para mim.

Entrei como terceira e sou apenas a terceira, estranha àquela casa, estranha àquelas vidas, estranha àquelas histórias. Resolvi, então, fechar as portas sem querer olhar para trás. Acho que é melhor deixar tudo ali e seguir a estrada oposta, assim não terá como retornar e errar um pouco mais.


... de ter um amor de verdade.


Saturday, May 14, 2011

Catavento

Parece que parei no tempo. Ou que a vida já passou no trem das 8:00hs e eu fiquei na plataforma esperando o próximo trem que não chega. Parece que por mais que eu corra e não tenha tempo para praticamente nada, ainda sim, o tempo sobra nas minhas mãos e aí, fico sem saber o que fazer dele. Olho para um lado e para o outro e não sinto mais as vontades de antes. Sinto outras, porém inalcançáveis. Vou deixando o tempo me levar pelas mãos e me guiar pelos caminhos, sem um rumo definido, sem ter controle sobre nada.

É como um catavento. O vento assopra e vai empurrando cada parte da nossa vida. Empurra, empurra, mas continuamos sempre no mesmo eixo. Em determinados momentos, o vento é rápido e contínuo e trabalhamos a todo vapor. Sabemos o que fazer, pra onde ir, fazemos planos que nem sempre se concretizam, mas que ao menos existem de alguma maneira. Em outros momentos, entretanto, o vento sopra devagar e lentamente e sentimos o peso de cada passo, cada decisão, cada escolha. O ritmo se torna espaçado, entramos em dúvidas que se tornam em saudáveis pensamentos. Por fim, há simplesmente os momentos em que o vento não chega e ficamos estagnados com o que temos. Nada de expressivo acontece e vamos vivendo um dia após o outro sem saber muito bem para onde estamos indo. Aparentemente aquela parcela que deveria ser empurrada para frente, não é. E ficamos ali... naquele mesmo lugar, procurando qualquer sarna que seja para se coçar e encontrando apenas o nada.



(*) Foto do site www.cacareco.net