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Monday, May 02, 2016

E agora, Fernanda?

E agora, Fernanda?
O tratamento acabou,
a rotina recomeçou,
a vida seguiu,
a história ficou,
e agora, Fernanda?
e agora, você?
você que não sabe pra onde ir,
o que fazer,
você que sorri,
que ama, brinca?
e agora, Fernanda?

(trecho adaptado e, claro, sem qualquer pretensão de comparação, do poema de Carlos Drummond de Andrade: "José")

"Em pensar que a essa hora, no ano passado, não tinha um fio de cabelo nessa cabeça e hoje... olha como está cabeluda". Verdade, estou cabeluda, cheia de cachinhos - que ora me irritam, ora me divertem -, mas os cabelos são apenas a pontinha do iceberg que mora em mim. Já faz um tempo que venho pensando sobre o que tem acontecido na minha vida desde o ano passado. O tratamento acabou. A vida seguiu seu rumo. As coisas estão meio que voltando ao normal. E as pessoas, com certa frequência, me perguntam "como você se sente?", "agora tá tudo bem, né?" e eu, sozinha com os meus inúmeros pensamentos, não canso de me perguntar "E agora, Fernanda?"

Eu me pergunto isso, pois confesso que, por diversas vezes, me sinto um pouco mais perdida que o normal. "Normal" porque acho que, assim como eu, independente de doença ou não, todos nós nos deparamos com momentos de dúvida durante a vida. No meu caso específico, passei por um tratamento pesado e cheio de limitações e, por algum motivo desconhecido, pensei que, ao final, tudo ia mudar: que não ia mais repetir os mesmos "erros" do passado; que tinha aprendido tantas coisas; que não ia deixar mais que as pessoas se aproveitassem da minha boa vontade; que não ia mais trabalhar como antes; que ia voltar a fazer aulas de francês/jazz/natação; que, que, que... e por aí vai. No fim, acabei percebendo que as coisas realmente não são tão simples assim.

Percebi que não é porque abri as portas das reflexões internas que tudo se resolverá com um passe de mágica. As questões mudaram, é verdade, mas ainda existem e estão aí (e eu chego até a duvidar que algum dia elas acabarão). As questões são outras porque a vida é outra. A cada vez que me perguntam "mas o que mudou?" eu repito a pergunta pra mim durante dias e sempre encontro respostas diferentes.

Muitas coisas mudaram, sobretudo dentro de mim. A rotina, entretanto, voltou e, com ela, as preocupações, a vida no automático. Quando percebo, lá estou eu repetindo tudo aquilo que eu prometi pra mim que não faria mais. Lá estou eu trabalhando até tarde, adiando exame médico, me doando para coisas que deixaram de ser tão importantes para mim. Por outro lado, ainda que a vida tenha voltado a esse ponto "automático", o olhar passou a ser diferente. Hoje eu ao menos consigo distinguir o que funciona ou não funciona mais pra mim. Mais que a distinção, passei a assumir as minhas vontades, deixando um pouco o medo de lado, e "só" isso já faz uma baita diferença na minha vida. Claro que acabo sendo obrigada a fazer coisas que não gosto, afinal, faz parte da vida, mas acho que só de ter a consciência do que é bom ou não pra mim, já é um grande passo.

As mudanças vêm ocorrendo em doses homeopáticas. Eu percebo em mim uma permissividade e aceitação que antes não existiam. Eu tenho me permitido sentir mais, ser mais aberta com as pessoas, compartilhando um pouco do que eu sinto e das minhas vontades. Também acredito que eu passei a me olhar com mais amor e aceitação. É fácil? Nem um pouco. Acaba sendo um exercício diário, principalmente para uma pessoa que, assim como eu, nunca teve esses "auto-olhares". No entanto, nessa caminhada, eu venho percebendo o quanto toda essa bagunça na minha vida tem sido fundamental para eu fazer uma faxina interna e começar a notar o que, de fato, me traz felicidade, vivendo com paciência; um dia de cada vez.

Talvez as mudanças tenham que ocorrer em doses homeopáticas mesmo para que eu possa me acostumar com toda devastação que o furacão deixou pra trás. E eu não reclamo. Como já disse antes, acredito que nada acontece por acaso e comigo não ia ser diferente. A doença, o tratamento e o sofrimento passaram, mas a vida não. A vida continua aqui, se reconstruindo dia após dia.

E agora, Fernanda, o que será do amanhã? Não faço ideia, mas ando me esforçando para viver o hoje da melhor maneira possível. Que a vida é feita de escolhas, a gente já está cansado de ouvir (agora não posso mais fazer a piadinha infame "já está careca de ouvir"... hehehe), mas, apesar de clichê, é a mais pura verdade. O amanhã a gente se preocupa quando ele chegar. Hoje eu só escolho ser feliz!




Tuesday, November 24, 2015

E o pulso ainda pulsa...

"Achava que íamos conversar sobre a cirurgia para tirar o nódulo de 5,5 cm que eu tenho no seio esquerdo, porém eu estava enganada. Meu nódulo foi diagnosticado como um tumor maligno. (...) It is what it is. Agora é buscar uma solução para o problema!"(*)

Há um ano atrás eu perdi o chão sob os meus pés. O mundo girou e eu continuei ali, parada, sem saber o que fazer ou pra onde ir. Há um ano atrás eu senti o verdadeiro gosto amargo na boca. Os ouvidos se tamparam, as palavras silenciaram ao passo que a cabeça não parava de funcionar; não parava de pensar. 

Há um ano atrás, em uma segunda-feira de novembro, eu descobri que tinha um câncer dentro de mim. Como se eu tivesse me atirado em uma piscina sem qualquer proteção, com o nariz tampado e de olhos fechados, senti aquele silêncio dentro da água. Sensação de vazio... "é comigo mesmo?". Um instante de silêncio seguido de um turbilhão de pensamentos e medos. Naquele momento, só conseguia ouvir o barulho alto das minhas perguntas. As mãozinhas da minha mãe seguravam a minha, mas eu não conseguia compreender o que estava acontecendo ali.

Parecia que não era comigo. Aliás, para ser sincera, às vezes ainda fecho os olhos e parece que nada aconteceu comigo nesse último ano... parece que vou acordar a qualquer momento e perceber que nada disso aconteceu de verdade e que foi só um sonho esquisito. No entanto, quando olho para a imagem refletida no espelho, vejo uma pessoa diferente e me dou conta de que foi real, de que tudo aconteceu comigo e que eu já não sou mais a mesma pessoa de antes.

É estranho como o controle (ou a ideia dele) sobre a nossa vida, de repente, escapa das nossas mãos e percebemos que não somos nada além de humanos. Humanos que estão sujeitos a qualquer coisa a qualquer momento. 

Há um ano atrás, talvez escondida na minha prepotência disfarçada, eu realmente acreditava que aquele nódulo era só um nódulo e nada demais. Fui para o consultório do médico certa de que após mais alguns exames marcaríamos uma cirurgia simples e que logo aquele caroço estaria fora de mim. Inocência ou ignorância, não sei, só sei que não imaginei que isso poderia acontecer comigo e muito menos daquela maneira. 

E um ano se passou desde que saí do consultório do Dr. Ginecologista impedida de enxergar o chão embaixo dos meus pés por conta das lágrimas que insistiam em cair dos meus olhos. E no espaço desse "um ano" tantas outras lágrimas foram derramadas, mas muitos sorrisos também iluminaram meus dias. Tantas reflexões, tantas confusões de sentimentos, tantas vontades que nem que eu quisesse conseguiria enumerá-las. Ainda que já tenha se passado um ano, tantas coisas aconteceram que ainda não consigo reconhecer tudo. Nem mesmo aquela imagem refletida no espelho eu ainda consigo reconhecer por inteiro. Consigo enxergar uma mulher com alguns quilinhos a mais, com os cabelos curtos e cheios de cachinhos involuntários, mas que eu ainda não sei se sou eu. Uma mulher que, apesar da minha dificuldade em reconhecer, passou a enxergar a vida com lentes de aumento, tentando atribuir o real valor às coisas que realmente importam. Enxergo uma mulher que se permite sentir a tristeza, a dor, a solidão, a dúvida, o medo, mas que também se permite sonhar, em meio a todas dúvidas, com uma vida melhor e mais significativa. Uma mulher que permite receber ajuda do outro, o amor e carinho incondicionais dos que a cercam. Uma mulher que se permite sorrir quando quer sorrir e que, acima de tudo, se permite chorar, sem medo ou culpa, quando quer chorar. Uma mulher cujo maior medo é de voltar a ser, simplesmente, o que era antes, mas cuja maior vontade é de viver, cada dia de uma vez, como se não houvesse amanhã.

(*) trecho do meu diário datado de 24 de novembro de 2014.

Saturday, May 16, 2015

*** Felicidade sem fim! ***

(*) Chorando de alegria!
Nunca imaginei que um dia eu ia ser invadida por uma felicidade tão verdadeira (e nada clandestina! hehe). Um sentimento delicioso tomou conta de mim desde a última quinta-feira, dia 14 de maio de 2015. Esse dia tem um significado MUITO especial para mim. Especial, pois uma etapa do meu tratamento acabou. Uma etapa dolorosa, cheia de percalços, altos e baixos, mas ela ACABOU. Ainda terei os efeitos colaterais dessa última dose de químio, mas quem se importa? Serão os últimos efeitos colaterais causados por quimioterapia. Últimos. Não, eu ainda não estou acreditando nisso. E cada vez que penso, só consigo sorrir e sentir uma leveza enorme. Sinto vontade de gritar para o mundo que eu estou livre da quimioterapia. Sei que não temos certeza de nada nessa vida, pois tudo acontece por algum motivo, mas, ao mesmo tempo, dentro de mim tenho tanta certeza que nunca mais precisarei passar por isso que nem sei como explicar. Claro que se tiver que passar de novo, vestirei as minhas armaduras junto com o meu mais lindo sorriso para encarar tudo de frente, mas isso não vai acontecer... tenho muita vida para viver ainda. Tenho muito o que aprender e não quero mais aprender pela dor. Quero apenas aceitar, confiar, entregar e agradecer!

Hoje, mais do que nunca, a minha felicidade transborda junto com as minhas lágrimas da mais pura alegria e amor. Estou tão emocionada e feliz que nem tenho conseguido responder mensagens sem chorar um pouquinho! hehehe... Vontade de sair abraçando todo mundo que esteve por perto seja fisicamente, seja por meio de mensagens, de pensamentos, de vibrações, de orações, de mimos, de flores, de palavras... enfim, não importa como, mas sempre se fizeram presentes de alguma maneira e eu recebi tudo de braços e coração abertos. Vontade de distribuir sorrisos, de olhar nos olhos e de agradecer muito a cada um por toda força, por todo amor, por todo carinho, por todo apoio. A guerra ainda não acabou, mas o importante é que eu vou comemorar cada etapa e cada batalha vencida em busca da cura!!!

Gratidão imensa! Felicidade sem fim!

Sunday, March 22, 2015

Cabelo, Cabeleira, Cabeluda, Descabelada

Estávamos passando alguns dias em Embu-Guaçú logo no início do ano novo. Meu oncologista - Dr. (querido) Daniel - já havia me alertado sobre a alopecia (ou queda dos meus fios de cabelo): a partir do 15o. dia após a primeira sessão de quimio o couro cabeludo começará a doer e o cabelo começará a cair. Pelas minhas contas, o tal 15o. dia cairia exatamente no dia do meu aniversário, 1o. de janeiro (baita presente!). Pois bem, como esperado, no dia 31 de dezembro tive uma dor de cabeça bem chatinha acompanhada de dor no couro cabeludo. Não é uma dor insuportável nem um bicho de sete cabeças, mas dor é dor. Pode ser comparada à dor que segue penteados bacanas pós-casamento: depois que a festa acaba, o couro cabeludo reclama. A dor é bem semelhante a essa!

No primeiro dia do ano, conforme previsto, minhas madeixas começaram a cair. No início, foi uma queda um pouco "tímida". Caía um tufo aqui, outro ali, nada demais. Já no dia seguinte, a queda aumentou consideravelmente. Ao acordar, percebi que meu travesseiro e meu pijama estavam cheios de fios. Durante o dia, eu ia deixando fios por onde quer que eu passasse na casa. "Não fica passando a mão no cabelo", minhas irmãs insistiam, mas era como se falassem para a criança não pegar mais balas do baleiro cheio, ou seja, de nada adiantava. Quanto mais eu passava a mão na minha cabeça, mais tufos grossos de cabelo saíam nas minhas mãos. Fiquei imaginando como teria sido caso eu não tivesse cortado meu cabelo curto dias antes.

Fui para o banho e, ao sair do chuveiro, uma bola de fios de cabelo saiu comigo. Pedi uma escova emprestada para a minha mãe. Enquanto eu me olhava no espelho do banheiro, meus cabelos se emaranhavam cada vez mais na escovinha. Eram muitos e eu não tinha muito o que fazer. Foi deprimente ver meu cabelo caindo daquele jeito. Na medida em que passava a escova no meu cabelo, minhas inevitáveis lágrimas escorriam pelo meu rosto. "Mãe, hoje é o último dia que eu penteio meu cabelo". "O último dia dessa fase, filha!". "Sim, o último dia dessa fase, mas é o último dia".

A casa estava cheia aquele dia e eu preferi não deixar nossos convidados para ir ao centro da cidade com a minha mãe. Estava decidida, mas sabia que precisava fazer as coisas no melhor momento. Sendo assim, combinei com a minha mãe de irmos ao centro da cidade no dia seguinte. Esperei o sábado chegar (dia seguinte), acordamos, tomamos café, peguei o lenço que eu tinha comprado no natal para a ocasião e fomos de carro para o centro procurar uma cabeleireira disponível. Da janela do carro, os fios que ficavam entre meus compridos dedos eram levados pelo vento.

Tentamos o salão de cabeleireiras que minha mãe conhecia, mas estava fechado. Na mesma rua, um pouco mais à frente dali, encontramos um salão pequenino, de portas envidraçadas e paredes roxas. Uma mulher (que parecia ser a cabeleireira) estava sentada na cadeira para atender os clientes, como se estivesse esperando alguém chegar. Pedi para a minha mãe estacionar o carro e, em seguida, fomos até o salão. Além da mulher que vimos lá logo que entramos no salão (que, de fato, era a cabeleireira), havia outras três mulheres: uma recepcionista, uma manicure e uma cliente fazendo as unhas. Conversei com a cabeleireira para saber se ela podia me atender naquela hora para cortar o meu cabelo:

- ... na verdade, é mais simples do que isso: quero raspar a cabeça.
- Mas você tem certeza de que você quer raspar esse cabelo lindo?
Sim... eu PRECISO.
- Hmmm... ok. Veja com aquela moça ali (a recepcionista) que, se eu não tiver ninguém marcado agora, eu posso te atender.
- Ok.

Enquanto fui perguntar à moça sobre a disponibilidade da cabeleireira, ela saiu do salão para cumprimentar uma amiga lá fora. Sentei na cadeira e esperei a cabeleireira voltar. Olhei para o espelho que estava na minha frente, tentando capturar, uma última vez, a minha imagem com aquela carinha e aqueles cabelos. Eu sabia que não tinha muito mais o que fazer, estava determinada.

- Posso te perguntar o porquê você precisa cortar os cabelos?
- Porque eu estou doente.
- É muito grave?
- Sim, é câncer.
- Vai ficar tudo bem.
- Dói muito? Porque meu couro cabeludo está dolorido.
- Não dói nada!

E assim, com sua mão esquerda sobre a minha cabeça, como se fizesse um carinho, ela começou a passar a maquininha com a mão direita. Realmente não dói nada. Como em uma orquestra, as lágrimas caíam junto com os cabelos. Minha mãe permanecia em pé ao meu lado, mas eu não tive coragem de olhar pra ela nem por um instante. Olhava firme para o espelho à minha frente.

Logo na primeira consulta com o Dr. (querido) Daniel, ao falar sobre o tratamento e todos os seus efeitos colaterais certeiros, ele mencionou a possibilidade de eu usar perucas. Havia falado sobre uma senhora que produziria uma peruca tão perfeita e tão fiel ao meu "cabelo de verdade" que ninguém ia perceber. Ainda sim, eu não quis. Não quis porque, dentro de mim, eu sempre ia saber que estava vivendo uma mentira. Não quis porque achei que fosse ficar estranho. Não quis porque achei que devesse enfrentar tudo de frente e da forma mais verdadeira que eu encontrasse. Enfim, não quis por "n" motivos. No entanto, teve um dia que eu pensei em colocar a peruca: um dia em que estava pensando como seria o retorno para o escritório e como seriam todos os olhares estranhos pra mim. Fossem de estranhamento, de pena, de surpresa, eu não queria enfrentá-los e pensei que a peruca fosse uma boa saída pra isso. Além disso, achei que eu fosse ficar feia, que ninguém mais fosse olhar para a Fernanda como ela sempre foi e sim, como uma outra pessoa. Nesse dia conversei com uma das minhas grandes amigas que, inclusive, passou por isso com uma pessoa muito próxima da sua família. Ela imediatamente me puxou pra realidade:

- VOCÊ ACHA QUE VAI FICAR FEIA?
- Acho...
- Não vai não.

E começou a me mostrar contas do instagram de outras mulheres que passaram/estavam passando pelo mesmo tratamento ao qual eu estava me submetendo. Mulheres que, assim como eu, estavam indo para a academia, correndo, malhando e supreendentemente carecas. E lindas. E cheias de força. E determinadas. E com vontade de viver.

- Mas como vão olhar pra mim no escritório? Eu não quero receber olhares estranhos só por conta da minha falta de cabelos na cabeça.
- Ah então você quer usar perucas por causa dos outros? Se você quiser usar peruca por SUA causa, porque vai se sentir melhor, aí tudo bem... mas pelos outros? Oi? Olhares "diferentes" você vai receber com ou sem peruca por "n" motivos. Aí vai de você saber lidar com isso, oras. Mas não faz o menor sentido você fazer alguma coisa porque os OUTROS vão te olhar diferente.
- É... você tem toda razão.

Nunca mais pensei em colocar uma peruca. E, no fim, ainda bem que não gastei dinheiro mandando fazê-la porque o calor que fez nesse 2015 não estava escrito em nenhum gibi. Passei tanto calor de lenço, imaginem se eu usasse a tal peruca!!!

A cabeleireira terminou de raspar minha cabeça e eu até que não fiquei parecendo o monstro do lago Ness ou qualquer outro bicho horrendo. Eu continuava sendo eu, só que com um peso a menos na cabeça (literalmente). Meu couro cabeludo já não doía e as lágrimas já tinham secado há algum tempo. Minha mãe se aproximou para me dar o lenço, "se você quiser, eu raspo meu cabelo agora. Sento aí e peço para ela raspar minha cabeça também". Não, mãe, não precisa. "Tem certeza, Fê? Porque se você quiser eu raspo e fico igual a você". Tenho certeza, mãe, não precisa cortar o cabelo. Ela então pegou um tufo de fios caído no chão e colocou na bolsa "de lembrança".

Quando levantei, as outras três moças estavam olhando pra mim. Olhos arregalados, não emitiram qualquer som. Eu, em contrapartida, peguei o lenço na mão, mas não o coloquei na cabeça. Pagamos e fui me despedir da cabeleireira. Ela era baixinha, de cabelos escuros. Estava visivelmente emocionada. Perguntei o seu nome (Lú), nos abraçamos "vai ficar tudo bem! Vou ficar te esperando para fazer um corte de cabelos de verdade". Pode deixar que eu volto!

Amarrei o lenço no shorts e saí do salão de cabeleireiras. Acabei me sentindo mais leve, menos tensa... pronta para enfrentar o mundo com o meu novo visual.



"Cabelo quando cresce é tempo". (Cabelo, Gal Costa)

Wednesday, December 31, 2014

Ah... 2014!

Último dia do ano. Último dia do meu ano pessoal (estou me despedindo oficialmente dos 32 aninhos...). 2014 foi um ano intenso. Um ano atípico, de "primeiras vezes": primeira vez que tive um "quórum" considerável de amigos comemorando meu aniversário no fatídico primeiro de janeiro; primeira vez que tirei todas as férias acumuladas que eu tinha na vida (e as não acumuladas também); primeira vez que fiz mais de uma viagem internacional em um ano (yay!); primeira visita ao Mercado Municipal de São Paulo (é, pois é.. hehe); primeiro ano que "fiquei de castigo" em casa por tanto tempo por motivos de saúde (na verdade, por falta dela) e por aí vai.

Passei um tempo fora do escritório, que, na verdade, começou em 2013, mas, basicamente, teve sua passagem maior por 2014. Fui trabalhar na área jurídica de um banco, aprendendo um outro lado da profissão que eu escolhi para a vida. Nesse caminho, conheci pessoas maravilhosas com quem tive a oportunidade de conviver diariamente. Aprendi muito nesses tempos e fiz amizades para a vida inteira.

Conheci novos pedacinhos da terra do meu pai ao lado de uma das melhores companhias do mundo - minha irmã do meio. Revisitei a linda e inesquecível cidade londrina e finalmente conheci Praga (encantadora, como não poderia deixar de ser). Viajei para Boston com as "minhas crianças" que, além de não serem "minhas", de "crianças" não têm nada! hehe... Uma viagem deliciosa com novas experiências e pessoas bacanas. E, por fim, porém não menos importante, tive a oportunidade de conhecer a cidade que nunca dorme: Nova Iorque! Cidade grande, com um infinito de possibilidades a serem exploradas. O sentimento que fica é o de querer ver mais, explorar mais, conhecer mais... (um dia eu volto!).

Nesse ano eu consegui voltar a ler alguns dos trocentos livros que eu compro compulsivamente como se não houvesse amanhã (claro que não li nem a metade, mas já estou no caminho! rs), passei a andar mais de transporte público e, consequentemente, observar mais as pessoas que moram nessa cidade imensa. Consegui refletir um pouco mais sobre as minhas escolhas, apesar de isso não querer dizer que cheguei a alguma conclusão... Fui mais ao cinema, revi amigos queridos que eu nunca tinha tempo de ver. Viajei mais para a praia, aproveitei mais a companhia da minha família. Tentei mudar alguns hábitos, passei a ir para a academia de ginástica regularmente, quis ser uma pessoa mais saudável.

Apesar de ter sido um ano rico em aprendizados e desafios, posso dizer com segurança de que o meu maior desafio está sendo passar esse final de ano com a confiança de que tudo vai ficar bem em 2015 e de que sim, eu vou me curar. De repente o Universo te vira do avesso e chega a hora de parar e realmente refletir sobre o que você anda fazendo ou deixando de fazer. Foi um final de ano difícil, não tenho como negar isso. Tive que aceitar uma nova condição que a própria vida me impôs. As mudanças físicas virão, mas as emocionais são por minha conta.

Como escrevi há algum tempo atrás: "não sabemos o quão forte somos até que, de fato, precisamos ser" e realmente não fazemos ideia dessa força que existe dentro de nós (ou, ao menos, eu não fazia ideia dessa força). Descobri como nesses momentos um olhar amigo, um abraço forte, uma palavra de conforto ou uma simples mensagem perguntando "como você está" fazem muita diferença. Também percebi que, infelizmente, nem todo mundo é tão bacana quanto eu achei que fosse, mas tenho certeza que isso também é parte do aprendizado.

Adotei um novo mantra para a minha vida, "viver um dia de cada vez". Pode parecer bobo, mas, para mim, tem feito um bem imensurável pensar assim. Logo eu que sou uma pessoa extremamente ansiosa e agitada, tive que parar de planejar e realmente viver o que tenho para viver no dia de hoje, sem me preocupar com o que vai acontecer amanhã. Não, não é fácil, mas estou aprendendo. Estou aprendendo também a ser um pouco mais otimista e tentar encarar os fatos com uma maturidade que eu nem sei se eu tinha antes. Aprendi a dar um novo significado à palavra "família" que, muito mais que pessoas ligadas por laços de parentesco, são aquelas pessoas que aconteça o que acontecer, custe o que custar, estão lá por você. Engraçado como no final do dia cada um com o seu jeito e suas convicções se torna uma peça de um quebra-cabeças onde cada qual tem sua importância e se encaixa de maneira perfeita.

Enfim, foi um ano de experiências incríveis, de conhecer (e re-conhecer) pessoas. Ano de aprendizados, desafios, aproximações, muitas alegrias, mas também de muitas lágrimas. E eu agradeço por cada momento passado, cada reflexão, cada aprendizado. Não importa quantas lágrimas ainda virão aos meus olhos, eu sempre vou tentar vestir o meu melhor sorriso e encarar tudo de frente, do jeitinho que tiver que ser.

Que venha 2015!

Monday, December 08, 2014

"Vai ficar tudo bem"

Entre sorrisos soltos, lágrimas escorreram dos meus olhos, sem que eu tivesse o menor controle sobre elas. As lágrimas traduziam a minha surpresa diante dos novos fatos que me foram apresentados. Minha mãe, sentada ao meu lado e já sabendo de tudo muito antes de mim, segurava uma das minhas mãos entre as suas duas mãozinhas e a apertava na medida em que eu chorava. Ela me dizia muitas coisas, mas eu só conseguia ouvir (e dizer para mim) "vai ficar tudo bem".

Foi mais que uma surpresa, um completo choque. Você não imagina que determinadas coisas acontecerão com você até que elas, de fato, acontecem. E podem acontecer com qualquer um, você sabe disso, mas jamais está preparado para tal.

Naquela noite, há exatas duas semanas atrás, fiquei cercada pela minha família. Foi uma noite difícil. Uma noite sem fome em que eu precisava mastigar e digerir toda a informação recebida. Uma noite longa, cheia de reflexões involuntárias. A distração era praticamente impossível diante do cenário. Depois que todos dormiram, fiquei só, sem sono, sem saber o que pensar exatamente. Milhões de pensamentos passam pela cabeça e, ao mesmo tempo, existe um vazio inexplicável. Uma vida passa diante dos olhos. 

Apesar do susto, depois de duas longas semanas cheias de exames e visitas médicas, consigo pensar e conversar sobre o assunto com tranquilidade e, de quebra, ainda fazer algumas piadinhas sem graça para não deixar tudo ainda mais pesado que é. Nessas duas semanas também descobri que tem muita gente querida que torce por mim no matter what que eu sequer poderia imaginar. Pessoas que me conhecem há anos ou que eu simplesmente encontrei uma única vez na vida me mandam mensagens lindas e energias positivas sem fim. Não há palavras para agradecer tanto amor e carinho em forma de palavras, é tudo realmente muito especial.

E assim vou dando mais um passo nessa vida, tendo mais um aprendizado, estreitando ainda mais alguns laços. É tempo de refletir, de passar a enxergar algumas situações com outros olhos e a dar valor ao que importa de verdade. Não vou mentir que existe em mim um certo grau de medo, afinal, é complicado lidar com o desconhecido, mas, ao lado do medo, também existe uma certeza: "vai ficar tudo bem".