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Friday, February 02, 2018

Sobre sintomas de saudade

Tenta fingir que hoje é um dia como outro qualquer, mas, por mais que insista, não consegue se enganar tão fácil assim. É inevitável não pensar nele e em todos os "começos" e possíveis significados que esta data lhe traz. Não consegue esquecer.

Não consegue esquecer também o seu olhar, o seu jeitinho tímido, aquele seu sorriso de canto de boca. Não consegue esquecer do dia que ele foi até o hospital só pra fazer companhia e segurar a sua mão (e a sua bolsa... rs). Não consegue deixar para trás a sensação boa do seu toque, do seu cheiro e da sua barba.

A verdade é que ela ainda não se acostumou com a ausência dele em sua vida. Sente falta das conversas, das brincadeiras, das intimidades, da parceria. Em alguns dias chega a sentir o cheiro dele por entre os lençóis da sua cama. Em outros, apenas o procura com os olhos no lugar onde eles sempre costumavam se encontrar no início do dia, só para ter a certeza de que ele não está. E dói não vê-lo mais...

Ainda é dolorido pra ela o fato de eles não se falarem mais; de ela não mais poder contar com ele e/ou contar para ele sobre todas as coisas que têm acontecido ultimamente. Detesta a distância física que hoje os separa, os fusos horários diferentes e, principalmente, os desentendimentos idiotas. Às vezes, lê trechos das suas conversas de meses atrás só para matar um pouquinho da saudade e dar risadas com as hashtags e fotinhos engraçadas que eles trocavam.

Enfim, apesar de todos os desentendimentos, desencontros e dores, ela continua apoiando a decisão dele de ir em busca dos seus sonhos, do seu caminho. Ele está passando pelos seus processos. E ela sabe que esta será uma experiência única e inesquecível para a vida dele.

E, assim, vai deixando o tempo passar, vivendo um dia de cada vez, esperando que tudo isso passe. Ainda assim, sente saudade dele todos os dias. E sente amor, apenas amor.

Saturday, December 17, 2016

O andarilho

Ele estava ali, parado na frente de um hostel qualquer, esperando. De um lado, seu violão dentro da capa preta, apoiado na parede. Sobre o vão da janela, uma garrafa de vinho aberta. No vão entre o vinho e o violão, estava ele, com o seu celular na mão, esperando ela chegar.

(*) Foto: "O sol e as sombras"
(gentilmente cedida pelo querido António Delicado)
A rua estava um pouco escura, mas, ainda sim, ela o reconheceu de longe. Achava que o encontro seria, no fim, um grande desencontro... mas, para a sua sorte, estava enganada. Eles se resolveram com poucas palavras e lá estava ela andando no seu ritmo usualmente acelerado para encontrá-lo.

Abraçaram-se com um abraço quentinho como se não se vissem há tempos (quando, na verdade, estavam separados há apenas uma tarde). Fazia muito frio naquela noite. Ela havia subestimado o frio; ele, por sua vez, usava um poncho. Caminharam lado a lado até a pracinha da cidade, conversando, sem pressa.

Quando chegaram, ele deixou o violão de um lado e a garrafa de vinho de outro. Ela descruzou os braços, tentando decifrar o que aconteceria em seguida. Quando finalmente ficaram frente a frente, trocaram olhares. Ele, então, a puxou pela cintura e a beijou com um beijo gostoso, sem pressa.

Conversaram sobre a vida, viagens, loucuras, limitações, família, expectativas... o frio fazia com que os dois ficassem cada vez mais próximos. Ele, preparado para a noite fria; ela se aninhando embaixo de parte do seu poncho. Suas mãos se encontravam e desencontravam, como deveria ser. A mão dela encontrava a barba dele enquanto a mão dele procurava o seu cabelo escondido sob o capuz. A expectativa criada antes de cada beijo causava arrepios. Uma tensão gostosa fazia com que eles tivessem cada vez mais vontade de estarem perto um do outro, assistidos apenas pelo céu cheio de estrelas. 

Entre um assunto e outro, se beijavam. Ele estava vivendo longe de casa, por opção própria. Ela só tinha aquela noite antes de voltar para a sua casa, também por opção própria. Naquela praça, em meio ao vinho, às palavras soltas ao vento e às pessoas que ali passavam, ela ouviu coisas que a fizeram refletir. Ele falava coisas que a interessavam. Ela o escutava atentamente e, de vez em quando, deixava seu ombro para olhá-lo com certa admiração. No seu íntimo, ela o achava corajoso demais por se aventurar daquela maneira, ainda que por tempo determinado.

O frio aumentava. Os corpos se entrelaçavam um ao outro cada vez mais. Ele exalava um cheiro bom de homem, de boas energias, de aventuras por vir. Ela exalava um cheiro bom de mulher, de redescobertas, de conquistas, de vontades.

Saíram da pracinha principal da cidade, de braços dados, caminhando pelas ruas de terra. Ele despertou nela vontades até então adormecidas; sede por aventuras, coisas novas. Ela, por sua vez, não queria que ele fosse embora. Queria que ele ficasse mais, que a noite não acabasse.

Ficaram juntos por mais tempo que ela imaginava (e menos do que gostaria). Ao se despedirem, trocaram beijos, carinhos, palavras e olhares. Como se já se conhecessem há tempos. Como se já tivessem percorrido todo aquele trajeto inicial de se conhecer alguém, sem que o estranhamento tivesse, de fato, acontecido. Sem falsas promessas, sem enganos passageiros.

Ele saiu caminhando pela rua de terra, naquela escura noite de segunda-feira. Andarilho, sozinho, foi ganhar e desbravar as novas estradas que a vida queria lhe apresentar. Carregava sua garrafa de vinho de um lado, seu violão de outro, o sorriso fácil no rosto, o coração cheio de amor e um monte de sonhos na cabeça.

Ela ficou parada no portão por mais alguns segundos, apenas assistindo-o ir, com vontade de pedir para ele ficar. Só mais um pouco. Só mais um gole. Talvez mais uma música. No entanto, já era tarde, já não havia mais volta. Abriu o portão para a sua antiga realidade, sem deixar de carregá-lo em sua memória e em seu coração.

Saturday, March 08, 2014

Estórias de Alice

Alice tinha vontade de se apaixonar novamente. Nem se lembrava quando havia sido a última vez. Sentia falta de sentir o coração parar por alguns segundos (e das palpitações sem fim que viriam em seguida), do frio na barriga, de ver o mundo com lentes coloridas na maior parte do tempo (se não o tempo todo).

Era romântica pra caramba. Tentava esconder esse fato até dela mesma, mas, no fim, cansou de remar contra a maré e achou que devesse se assumir do jeito que era para o mundo. Sou romântica mesmo, e daí?, falou para a amiga que a escutava pacientemente na mesa do bar. Queria romance, queria amor, queria planos juntos, musiquinhas bregas e tudo o que tinha direito.

(*) Foto por Álvaro Roxo (1000imagens)
Queria, queria, queria, mas estava um pouco cansada de procurar. Busca eterna e infinita, meudeusdocéu. Achava que nunca encontraria um cara legal para, ao menos, sair de vez em quando e fazer programinhas juntos. Esse mundo anda muito difícil: uma hora você é oferecida, outra hora você é desinteressada... como faz?. Não faz, Alice, deixa que façam. Quem quer, faz.

Quem quer faz? Faz. E ele fez. Ele a chamou pra sair. Eeeeee! Ela não se aguentava de tanta felicidade. Tanta que passou horas entre o chuveiro, o armário e o espelho só pra escolher uma roupinha para o "grande encontro". Eles tinham se conhecido em um casamento (Alice, como boa romântica que era, adorava casamentos). Ela já estava acostumada a ficar sozinha nos casamentos dos amigos que nem percebia muitas coisas ao seu redor. Até que percebeu e não se arrependeu.

Naquele sábado, porém, caprichou no visual - nada muito carregado, nada muito sóbrio -, colocou seu melhor perfume e saiu. Não sabia o que ia encontrar além dele, mas, no fim, nem se importava, afinal ia vê-lo novamente e só isso, na sua humilde opinião, já era uma vitória.

Vitória? Sim, explico: Alice vinha de uma maré de decepções atrás de decepções - um que era amigo, mas que não falou mais com ela depois de um micro-rolo-intenso-de-verão. Outro que saiu com ela algumas vezes e, "do nada"(pra ela), começou a namorar. Com outra, claro. Outro que só procura de tempos em tempos para dar uma garantida de que ela ainda está lá, solteira, supostamente infeliz e para dar uma "mijadinha no poste", afinal, cachorro que é cachorro mija em todos os postes da rua para assegurar o seu posto. O outro que tinha 15 anos de mentalidade e ela não sabia mais o que fazer pra despistar. Pois é, pois é... "poor Alice".

Diante disso tudo, não se furtou de pensar: agora é a minha vez de ser feliz. O cara é ótimo!!. Morreu de vergonha por alguns minutos, mas, depois, tudo entrou nos eixos. Já havia se enturmado com o pessoal da mesa, estava quase "se sentindo em casa". Ele, um fofo, fazia de tudo pra ela ficar à vontade. Ela, uma fofa, fazia de tudo pra se libertar da vergonha infinita. E foi ótimo!

Mas aí os dias passaram. Trocaram algumas mensagens fofas (um adendo necessário aqui: Alice quase morreu com uma mensagem recebida dizendo que "estava com saudades". Vamos combinar que um "saudade" é QUASE uma declaração de amor em determinadas situações nos tempos de hoje. Não é, eu sei, você sabe, Alice sabe, mas é um QUASE e um "quase" já é uma grande coisas no mundo de Alice). Ela se encantou, se empolgou de novo e as palavras saíram correndo dos seus rápidos dedinhos.

Depois de um tantinho de tempo, os fofos resolveram se encontrar novamente. Eeeeee! Ele sugeriu de se verem e Alice já ficou toda animada. Não fez mais nada no dia marcado a não ser esperar e, claro, pensar na roupa, no cabelo, no sapato, na vida. Esperou mensagem, ligação, sinal de vida, fumaça, bolhinha de sabão. Decidiu que não seria mal nenhum mandar uma mensagem e... nada. Telefonou (será que ele foi atropelado? parada cardíaca? sequestro relâmpago? levaram o celular embora CERTEZA!... a mente de uma mulher pensa sempre nas mais loucas possibilidade e finge acreditar em cada uma delas para alívio imediato da não correspondência).

Alice não aprende mesmo. Já decepcionada (outra vez?) recebeu uma mensagenzinha no dia seguinte (não, ele não tinha sido atropelado, sofrido parada cardíaca, etc, etc) e resolveu que ele não era tudo aquilo. Ficou triste por uma semana e não mais pronunciou o seu nome para as amigas, as amigas das amigas e para qualquer outro ser com quem ela quisesse dividir a felicidade de ter encontrado um cara bacana. Desacreditou mais uma vez na possibilidade de encontrar alguém pra lhe fazer companhia. Comprou uma passagem, tirou férias e foi embora pra Europa ser feliz.

PS: tempos depois Alice ficou sabendo que ele tocou a sua vida, como devia ser: mudou de emprego, parou de fumar, comprou um cachorro e se mudou para uma casa confortável com a sua atual esposa.