Sunday, November 25, 2007

* A cadeira *

Ela sempre esteve lá, fui eu que nunca percebi sua existência. Como isso pode ser possível? Não perceber a existência de um objeto que sempre ficou num determinado lugar que, aliás, esteve sempre bem perto de mim. Nunca a tinha visto. Nunca a tinha percebido até o dia de hoje.
Cheguei lá na porta, toquei a campainha, me apresentei e subi. Entrei na pequena sala já tão conhecida de tantas consultas e enquanto me sentava, acomodava minha bolsa num dos braços do sofá que sempre está cuidadosamente ajeitado para eu me sentar. As almofadas haviam mudado de lugar, mas esta não era uma novidade, pois todos os Sábados elas mudam e desmudam e eu sempre as ajeito do jeito que eu quero. Desta vez, no entanto, não hesitei: me esparramei por sobre as almofadas creme e laranja que lá estavam e ela disse: “- Fique à vontade... põe a bolsa ali.” Neste momento – e somente neste - percebi que lá existia uma cadeira e comentei que esta não existia antes, pelo menos não ali naquele lugar. Ela, por trás de seus óculos e com seus vívidos olhos, me disse que eu estava enganada, pois aquela cadeira sempre esteve ali, eu que não a havia notado antes. Estranho... muito estranho! Impossível a cadeira ter sempre existido ali, bem debaixo do meu nariz e eu nunca tê-la percebido!
A partir desse acontecimento que, por assim dizer, seria de certa forma algo insignificante, comecei a me questionar em quantas ruas, quantas esquinas, quantas pessoas, quantas coisas na minha vida eu já não devo ter passado perto e nem reparado que ali estavam. Nem ter reparado que, talvez, uma coisa pudesse ser útil para mim, enquanto uma pessoa pudesse me mostrar outros caminhos, outras possibilidades e eu, simplesmente, não enxerguei. Passei reto. Não olhei para os lados.
Por outro lado, às vezes tenho a impressão que olho até demais para os lados e enxergo até demais as pessoas, mas talvez estas não sejam as pessoas certas a serem enxergadas ou ouvidas ou até mesmo percebidas por mim. Às vezes chego a ser “enxerida” nos assuntos alheios para tentar ajudar, mesmo sem ter sido solicitada a minha ajuda e acabo me magoando, pois minhas expectativas depositadas ali estavam longe demais para serem atendidas. Talvez isso aconteça porque estas mesmas pessoas não me enxergam ou então, pior, têm uma imagem distorcida de mim. Neste momento eu percebo o quanto há pessoas e coisas que são altamente dispensáveis para a minha vida e para as quais eu não devo o mínimo de consideração sequer. Para as quais eu não tenho que ter medo de dizer “não” e ponto final.
Engraçado é parar e perceber as coisas e ver que existe muito mais a ser descoberto além daquilo que os olhos apenas vêem, mas não enxergam de fato.
Daqui pra frente, vou tentar prestar mais atenção ao meu redor, menos atenção em outras coisas já passadas.

4 comments:

Fê Savino said...

Foto de Flip Pizlo

N. Ferreira said...

Fantástico!
acho que às vezes perdemos tempo demais achando que as coisas a serem olhadas e percebidas são sempre verde-limão fluorescente piscando e fazendo barulhos.
Não são.
Às vezes são coisas tão simples que nem nunca atentamos a elas.
Já pensou em sentar nesta nova cadeira? Ou em experimentar frutas que você não olha no supermercado? Ou em prestar atenção no céu quando acorda?
Outro dia percebi na frente do hospital uma florzinha nascendo numa fissura do cimento da calçada.
Ela era grande até.
sempre esteve ali, mas só naquele dia, apenas naquele dia, ela pôde alegrar meu dia.
Beijo grande cheio de saudade!

pretinha said...

cadeiras, florzinhas, pessoas, lugares...

às vezes nosso estado de espírito nos impede de olhar a nossa volta né!! Normal...
Vê se agora preste atenção nas coisas simples assim do dia a dia que é com elas que a gente mais aprende com certeza...
vc escreve mto bem magrelinha....

te amo demais!
by the way, 19:07!!=D

bjocaaaaaaa

Caco said...

Você está com a sabedoria da Emília do Sítio. Espevitada e decidida. Beijo & stay well.