Monday, May 02, 2016

E agora, Fernanda?

E agora, Fernanda?
O tratamento acabou,
a rotina recomeçou,
a vida seguiu,
a história ficou,
e agora, Fernanda?
e agora, você?
você que não sabe pra onde ir,
o que fazer,
você que sorri,
que ama, brinca?
e agora, Fernanda?

(trecho adaptado e, claro, sem qualquer pretensão de comparação, do poema de Carlos Drummond de Andrade: "José")

"Em pensar que a essa hora, no ano passado, não tinha um fio de cabelo nessa cabeça e hoje... olha como está cabeluda". Verdade, estou cabeluda, cheia de cachinhos - que ora me irritam, ora me divertem -, mas os cabelos são apenas a pontinha do iceberg que mora em mim. Já faz um tempo que venho pensando sobre o que tem acontecido na minha vida desde o ano passado. O tratamento acabou. A vida seguiu seu rumo. As coisas estão meio que voltando ao normal. E as pessoas, com certa frequência, me perguntam "como você se sente?", "agora tá tudo bem, né?" e eu, sozinha com os meus inúmeros pensamentos, não canso de me perguntar "E agora, Fernanda?"

Eu me pergunto isso, pois confesso que, por diversas vezes, me sinto um pouco mais perdida que o normal. "Normal" porque acho que, assim como eu, independente de doença ou não, todos nós nos deparamos com momentos de dúvida durante a vida. No meu caso específico, passei por um tratamento pesado e cheio de limitações e, por algum motivo desconhecido, pensei que, ao final, tudo ia mudar: que não ia mais repetir os mesmos "erros" do passado; que tinha aprendido tantas coisas; que não ia deixar mais que as pessoas se aproveitassem da minha boa vontade; que não ia mais trabalhar como antes; que ia voltar a fazer aulas de francês/jazz/natação; que, que, que... e por aí vai. No fim, acabei percebendo que as coisas realmente não são tão simples assim.

Percebi que não é porque abri as portas das reflexões internas que tudo se resolverá com um passe de mágica. As questões mudaram, é verdade, mas ainda existem e estão aí (e eu chego até a duvidar que algum dia elas acabarão). As questões são outras porque a vida é outra. A cada vez que me perguntam "mas o que mudou?" eu repito a pergunta pra mim durante dias e sempre encontro respostas diferentes.

Muitas coisas mudaram, sobretudo dentro de mim. A rotina, entretanto, voltou e, com ela, as preocupações, a vida no automático. Quando percebo, lá estou eu repetindo tudo aquilo que eu prometi pra mim que não faria mais. Lá estou eu trabalhando até tarde, adiando exame médico, me doando para coisas que deixaram de ser tão importantes para mim. Por outro lado, ainda que a vida tenha voltado a esse ponto "automático", o olhar passou a ser diferente. Hoje eu ao menos consigo distinguir o que funciona ou não funciona mais pra mim. Mais que a distinção, passei a assumir as minhas vontades, deixando um pouco o medo de lado, e "só" isso já faz uma baita diferença na minha vida. Claro que acabo sendo obrigada a fazer coisas que não gosto, afinal, faz parte da vida, mas acho que só de ter a consciência do que é bom ou não pra mim, já é um grande passo.

As mudanças vêm ocorrendo em doses homeopáticas. Eu percebo em mim uma permissividade e aceitação que antes não existiam. Eu tenho me permitido sentir mais, ser mais aberta com as pessoas, compartilhando um pouco do que eu sinto e das minhas vontades. Também acredito que eu passei a me olhar com mais amor e aceitação. É fácil? Nem um pouco. Acaba sendo um exercício diário, principalmente para uma pessoa que, assim como eu, nunca teve esses "auto-olhares". No entanto, nessa caminhada, eu venho percebendo o quanto toda essa bagunça na minha vida tem sido fundamental para eu fazer uma faxina interna e começar a notar o que, de fato, me traz felicidade, vivendo com paciência; um dia de cada vez.

Talvez as mudanças tenham que ocorrer em doses homeopáticas mesmo para que eu possa me acostumar com toda devastação que o furacão deixou pra trás. E eu não reclamo. Como já disse antes, acredito que nada acontece por acaso e comigo não ia ser diferente. A doença, o tratamento e o sofrimento passaram, mas a vida não. A vida continua aqui, se reconstruindo dia após dia.

E agora, Fernanda, o que será do amanhã? Não faço ideia, mas ando me esforçando para viver o hoje da melhor maneira possível. Que a vida é feita de escolhas, a gente já está cansado de ouvir (agora não posso mais fazer a piadinha infame "já está careca de ouvir"... hehehe), mas, apesar de clichê, é a mais pura verdade. O amanhã a gente se preocupa quando ele chegar. Hoje eu só escolho ser feliz!




3 comments:

Malu said...

Fe, sim, sim, sim, concordo com quase tudo. MAs não deixa o piloto automático assumir não, e não deixa ninguém abusar da sua boa vontade, e sobretudo, não trabalhe demais. Pense que você e a sua felicidade são mais importantes do que os prazos e as metas do seu empregador!

Paula Camargo said...

Você é demais!! Agradeço a Deus todos os dias pela doença da minha irmã ter lhe colocado em nossas vidas! Sou sua super fã!!!

Kathy said...

Linda!!! Vamos viver o hoje e o agora!!! Amo você!!! Saudades!!! Beijinhos